terça, 30 outubro 2018 11:39

“Não há superespecialistas, nem super-heróis, mas sim médicos que se diferenciam”

A importância da superespecialização na Oncologia foi o tema da conversa com o Dr. António Moreira Pinto, diretor do Serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNG/E). O responsável refuta que estejamos a criar especialistas em doenças em vez de especialistas no doente, e salienta a necessidade da diferenciação como arma capital para acompanhar a evolução do conhecimento, da Medicina e o crescente número de doentes.

My Oncologia (MO) | Observamos uma grande complexidade da Medicina, com mais e melhores meios de diagnóstico, mais armas terapêuticas e uma superespecialização dos médicos e participação em equipas multidisciplinares. São muitas variáveis a ter em conta, nomeadamente organizacionais e de liderança. Acha que os médicos têm respondido bem a essa complexidade?

Dr. António Moreira Pinto (AMP) - Acho que sim. Os médicos, como todos os seres humanos, adaptam-se à mudança e às circunstâncias. A complexidade e a evolução do conhecimento são tremendos e nós temos a necessidade constante de nos adaptar. No aspeto concreto da especialização, considero que a mudança era mesmo inevitável precisamente devido a esse aumento da complexidade. A diferenciação – prefiro chamar-lhe assim - é, por isso, algo de fundamental. Até porque, atualmente, com o aumento do conhecimento e também do número de doentes, um médico sozinho não consegue abraçar todas as áreas. Por isso, considero que não há superespecialistas, nem super-heróis, mas sim médicos que se diferenciam, uma diferenciação que surge naturalmente da necessidade de conseguir adaptar o conhecimento para o melhor em termos de decisão e do acompanhamento do doente.

MO | Mas depois, inserido nessa organização complexa, o médico não corre o risco de perder a base holística?

AMP | Acho que esse risco nunca está em causa. O médico oncologista tem a base da Medicina Interna, de ver o doente como um todo. Possui igualmente a escola da Oncologia Médica, desde o diagnóstico, até ao estadiamento, tratamento, avaliação dos efeitos secundários e resposta ao tratamento e cuidados de suporte e paliativos. Por outro lado, o conhecimento da biologia tumoral é cada vez maior, mais complexo, mais minucioso e as necessidades de resposta face aos doentes também são cada vez maiores e mais exigentes.

“Olhar o doente como um todo é sempre o nosso objetivo principal enquanto médicos”

MO | Sabemos que não se pode falar do cancro ou de outras doenças como se estas existissem de forma isolada no doente. Não teme estarmos a criar especialistas em doenças, em vez de especialistas no doente?

AMP | Não, de maneira nenhuma. Olhar o doente como um todo é sempre o nosso objetivo principal enquanto médicos. Como oncologista médico não olho apenas para a sua doença oncológica, tal como o cirurgião não vê apenas a parte cirúrgica. O doente é olhado na sua plenitude, na sua complexidade, nas suas comorbilidades, tendo em conta ainda o aspeto social e toda a sua envolvente. E se existem algumas situações comuns, a verdade é que também existem situações mais complexas que necessitam deste diálogo e desta diferenciação entre os profissionais, sempre em prol do doente.

MO | Esse modelo complexo de prestação de cuidados para o qual contribuem muito atores, não corre o risco de ser mais falível, nomeadamente pela comunicação permanente necessária entre os profissionais ou pela falta de tempo?

AMP | Isso não acontece se as pessoas se entenderem, seja quanto ao conhecimento ou à atitude a ter. No final do dia, o que interessa é o doente e trabalhamos para ele. É verdade que poderão existir sempre algumas dificuldades, mas felizmente, nós, aqui no Serviço, não sentimos muito isso. As equipas completam-se e entendem-se bem.

MO | Acha que esse bom entendimento e articulação é uma caraterística geral dos restantes serviços dos hospitais portugueses?

AMP | Todos fizemos o juramento de Hipócrates e, como tal, acho que se respeitarmos o ser humano, o doente, conseguimos trabalhar em equipa. Posso dizer que os serviços que conheço a nível nacional funcionam bem, cada um com os seus pontos fortes e outros a melhorar.

MO | Há muitos países que estão a apostar cada vez mais no modelo inverso, nos cuidados de saúde primários (CSP) como área abrangente. Também Portugal investiu na reforma dos CSP. Contudo, sabemos que está parada há alguns anos. Acha que é prioritário voltar a dar empoderamento aos CSP?

AMP | Acho que a área dos CSP nunca deixou de ser uma prioridade. Pode não ter sido sempre abordada da melhor forma, mas a prevenção é prioritária. Aliás, a prevenção é fundamental não só na área da Oncologia como em qualquer outra área da Medicina e é um dever de qualquer Governo apostar nesse aspeto. Mas isso não invalida o resto, que é a prestação de cuidados diferenciados a quem deles precisa.

MO | Existe uma maior referenciação de doentes por parte dos colegas de Medicina Geral e Familiar (MGF) para o seu Serviço?

AMP | Sim. A referenciação da MGF tem vindo a aumentar por um lado porque há mais doentes oncológicos e, por outro, porque cada vez mais trabalhamos em conjunto com os cuidados primários. Anualmente temos reuniões com os CSP. Os colegas podem referenciar-nos os doentes não só pelas vias oficiais, como o ALERT, como também existe uma via verde (e-mail e telefone) para troca de impressões e referenciação.

“Temos uma equipa dinâmica e muito proactiva”

MO | Como funciona o seu serviço, qual o modelo organizativo de base?

AMP | Funcionamos em várias vertentes, embora a nossa área maior seja a do ambulatório. Temos actividade assistencial (consulta externa, apoio ao Hospital de Dia, apoio ao internamento e urgência) e não assistencial (reuniões de grupo, de serviço e científicas). E, nesse aspeto, acho que demos um grande passo, pois já temos vários grupos abrangidos pelas reuniões disciplinares. Temos também a responsabilidade de formação de internos e de coordenação do Hospital de Dia para além de vários projectos de investigação, tanto académicos como da iniciativa do promotor.

MO | Em que áreas estão focados esses grupos multidisciplinares?

AMP | A Oncologia tem elementos na Unidade de Patologia Mamária, Unidade Funcional de Tumores da Cabeça e Pescoço, no Grupo Multidisciplinar de Patologia Colorretal, Grupo Multidisciplinar de Patologia Esófago-gástrico, Grupo Multidisciplinar de Patologia Hepato-bilo-pancreático, Grupo Multidisciplinar de Patologia Urológica e Grupo Multidisciplinar de Patologia do Sistema Nervoso Central.

MO | Existe ambição de criar mais algum grupo multidisciplinar?

AMP | Num futuro próximo, prevemos a criação do Grupo de Tumores Ginecológicos. Com o previsto aumento de recursos humanos é nosso objetivo, e da administração do centro hospitalar, a existência de internamento de Oncologia. Pretendemos também aumentar o nosso investimento na área da investigação.

MO | Como define a sua equipa?

AMP | É uma equipa dinâmica e proactiva que, apesar de heterogénea, é muito coesa. Esta heterogeneidade ajuda-nos a evoluir enquanto Serviço. Mesmo havendo uma organização hierárquica, não existem diferenças entre colegas. Somos uma equipa, trabalhamos como equipa, discutimos como equipa, e cada elemento tem toda a liberdade para crescer e para poder desenvolver todas as áreas que sejam do seu interesse.

MO | A equipa participa em ensaios clínicos?

AMP | Sim. É também algo que diferencia como equipa. Participar na evolução e na inovação é fundamental, não só em termos de conhecimento pessoal, como também no reconhecimento que o próprio hospital ganha com isso. Ganhamos todos. O hospital, nós e, essencialmente, os doentes.

MO | São quantos elementos no serviço?

AMP | Somos sete. Dois homens e cinco mulheres.

MO | Tem todos os recursos humanos que precisa?

AMP | Não tenho os recursos que preciso para tudo, nomeadamente para continuar a crescer da forma mais adequada. Precisamos de mais elementos para organizar mais consultas, ter internamente e também prestar apoio às outras especialidades. Para isso é preciso muito tempo e o que temos conseguido desenvolver até à data ultrapassa o horário normal de trabalho. Não queremos ser reconhecidos por isso, mas a verdade é que é assim que funciona, sempre na esperança que venha mais alguém para poder colmatar essas faltas. Sabemos que os recursos humanos são escassos na área da saúde, mas mesmo assim penso que temos conseguido fazer uma boa Medicina.

“Não sei até quando [o preço das terapia inovadoras] será sustentável”

MO | Embora agora esteja previsto um aumento da verba no Orçamento do Estado para 2019, a Saúde foi das áreas que mais foi prejudicada em termos de orçamento desde a chegada da troika….

AMP | E essa é uma questão particularmente delicada porque na área da Oncologia os tratamentos custam muito dinheiro e as terapêuticas inovadoras têm um preço exorbitante. Não sei até quando é que isto será sustentável…

MO | E, entretanto, a dÍvida dos hospitais à indústria farmacêutica não para de aumentar….

AMP | Trata-se de um problema complexo, mas obviamente, é algo que terá que ser resolvido. Cabe ao Estado ter uma atitude em relação a isso, porque o acesso à saúde deve ser igual para todos.

MO | O que mais o preocupa e quais os desafios principais enquanto diretor da Oncologia Médica?

AMP | Um dos problemas fundamentais atualmente é precisamente a evolução dos custos da nova medicação e o volume crescente de doentes. É muito difícil gerir esse aspeto. Somos médicos e temos que decidir enquanto médicos, nós não podemos estar a gerir números. Por outro lado, como cidadãos sabemos que face à evolução do número de doentes estamos a gastar muito e não sabemos até que ponto isso é sustentável ou não. A outra preocupação é sempre a eterna questão dos recursos humanos, porque para se poder fazer uma boa Medicina temos que ter recursos, bons técnicos, bons profissionais, toda a equipa envolvente, como enfermeiros, auxiliares, administrativos. Ou seja, se não existem recursos para acompanhar esta evolução crescente do número de doentes e complexidade da Medicina, a qualidade poderá ficar em causa.

 “Em termos de qualidade, estamos no topo”

MO | Em termos gerais como carateriza a Oncologia portuguesa? Pensa que ainda está em fase de crescimento ou é comparável à dos melhores?

AMP | A Oncologia portuguesa é uma Oncologia de qualidade. Nós não estamos nada atrás dos melhores e isso acontece já há uns anos. Antigamente, havia doentes que procuravam outras instituições no estrangeiro, mas já há muito tempo que nós fazemos tudo. Nós temos todo o conhecimento, temos as melhores técnicas, todos os medicamentos e temos profissionais de qualidade - alguns que infelizmente abandonam o país porque não têm as condições ideais para poderem trabalhar. Posso dizer que em termos de qualidade estamos no topo. Não temos dinheiro, mas estamos lá.

Conhecer melhor o Dr. Moreira Pinto

O Dr. António Moreira Pinto, nascido a 24 de fevereiro de 1960, natural de Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, licenciou-se em Medicina em 1985, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, especializando-se de seguida em Medicina Interna. Frequentou o mestrado em Oncologia Médica, obteve o grau de Consultor de Medicina Interna e, em 2003, a especialização em Oncologia Médica. Tem o grau de Consultor de Oncologia Médica.

Além de diretor do Serviço de Oncologia Médica, do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho desde 1 março de 2008, o oncologista trabalha no Hospital Cuf Porto, onde é responsável pelo tratamento com hipertermia contra o cancro.

Foi, de 2007 a 2014, docente de Oncologia da disciplina Clínica Médica II, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS).

De salientar a sua participação como investigador em múltiplos ensaios clínicos multicêntricos internacionais na área da Oncologia, bem como a publicação de várias comunicações em congressos nacionais e internacionais e de artigos médicos na área da Medicina Interna e da Oncologia

Números do Serviço de Oncologia do CHVNG/E

  • 11666 – Total de consultas médicas/ano
  • 1811 – Primeiras consultas médicas
  • 9855 – Consultas médicas subsequentes
  • 11399 - Sessões no Hospital de dia

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