terça, 27 novembro 2018 11:44

Evolução do tratamento do cancro de cabeça e pescoço: a imunoterapia em 1.ª linha

No Congresso da European Society of Medical Oncology (ESMO) deste ano, foram apresentadas algumas novidades quanto ao tratamento do cancro de cabeça e pescoço, nomeadamente a introdução da imunoterapia para tratamento de 1.ª linha. Em entrevista ao My Oncologia, a Dr.ª Leonor Ribeiro, oncologista médica no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte – Hospital de Santa Maria (CHULN/HSM), explica de que forma tem evoluído a terapêutica desta doença oncológica, reforçando ainda a necessidade de prevenção e diagnóstico precoce deste tipo de cancro.

My Oncologia (MO) | Todos os anos, são diagnosticados em Portugal cerca de três mil novos casos de cancro de cabeça e pescoço. Como comenta o panorama nacional?

Dr.ª Leonor Ribeiro (LR) | O cancro da cabeça e pescoço está estritamente relacionado com dois fatores de risco clássicos: os hábitos tabágicos e alcoólicos. Apesar das campanhas de sensibilização e os programas educacionais, infelizmente o tabagismo e o alcoolismo são ainda uma realidade muito presente na população portuguesa.  Estes, quando existentes em conjunto, têm um efeito sinérgico e não apenas somatório, o que ainda reforça o seu efeito nefasto.

MO | Existem em todo o mundo mais de 600 milhões de pessoas infetadas pelo vírus do papiloma humano (HPV), sendo esta uma das causas do cancro de cabeça e pescoço. Como caracteriza esta realidade?

LR | De facto, para além do tabaco e do álcool, o outro factor de risco real para o cancro da cabeça e pescoço é a infeção pelo vírus do papiloma humano, de transmissão por via sexual, sendo responsável por várias infeções, nomeadamente genitais e orais, maioritariamente assintomáticas e de regressão espontânea. No entanto, poderá ocorrer persistência do vírus no organismo, nomeadamente a nível de uma área específica onde o vírus se aloja, a orofaringe, e passados anos de latência vir a provocar cancro. Assim, e apesar de felizmente ser atualmente contemplada em Portugal a vacinação obrigatória para as meninas em fase de início da sua atividade sexual, compreende-se que o número de pessoas infetadas ainda seja elevado.

MO | Que atitudes devem ser adotadas no sentido da prevenção?

LR | Para além de não fumar nem ingerir bebidas alcoólicas em excesso e cumprir o plano de vacinação para o HPV, existem outras medidas importantes, nomeadamente para o cancro da cavidade oral: adequada higiene oral, visitas regulares ao seu médico estomatologista ou de Medicina Dentária e evitar traumatismos desnecessários na mucosa oral, como próteses dentárias desadaptadas.

MO | Este ano, foram apresentadas no Congresso da ESMO algumas novidades quanto ao tratamento desta patologia, nomeadamente a introdução da imunoterapia para tratamento de 1.ª linha. De que forma tem evoluído o tratamento do cancro de cabeça e pescoço? Que novidades há a salientar?

LR | Durante muitos anos, o contributo da Oncologia Médica para o tratamento dos tumores da cabeça e pescoço limitava-se a um conjunto escasso de medicamentos de quimioterapia e um agente do grupo dos agentes biológicos. Nos últimos três anos têm vindo a ser apresentados resultados importantes para o tratamento do cancro da cabeça e pescoço com a imunoterapia, nomeadamente com um grupo de medicamentos chamados inibidores check-point (impedem a ligação de proteínas PD-1 e PD-L1 que, quando interligadas, impedem que o nosso sistema imunitário reconheça o tumor como algo nefasto a destruir). Os resultados apresentados de ensaios clínicos são aplicados ao tipo mais frequente da doença, o carcinoma pavimentocelular e em fase recorrente ou metastática, ou seja, para recidiva locorregional ou envolvimento de outros órgãos à distância. Em 2016 foram apresentados e publicados os resultados sobre um medicamento (nivolumab) para o tratamento da doença refratária/ resistente a tratamento com platinos (cisplatina ou carboplatina). Este ano foram apresentados os primeiros resultados de um estudo que parece revelar superioridade de um outro inibidor check-point (pembrolizumab) para o tratamento em 1.ª linha, em comparação com o tratamento standard (que inclui platino, 5-fluououracilo e cetuximab). Teremos de aguardar pela maturação destes dados, com os resultados finais do estudo e sua publicação, sendo que o mesmo parece ainda apontar para um biomarcador de seleção dos doentes para esta terapêutica, nomeadamente a sobreexpressão do recetor PD-L1 no tumor, nos linfócitos e macrófagos.

MO | Este tipo de cancro é suscetível de criar defeitos oro-faciais resultantes do tratamento oncológico, que têm grandes implicações na qualidade de vida. De que forma se processa a reabilitação destes doentes?

LR | Dado que, felizmente, aumentamos a sobrevivência destes doentes, devemo-nos preocupar cada vez mais com a sua qualidade de vida. A própria doença é muitos vezes visível e limitante, mas também os tratamentos cirúrgicos e a radioterapia poderão provocar alterações anatómicas e funcionais, com consequentes limitações nos movimentos de deglutição e da fala, essenciais para a sobrevivência e vida de relação dos doentes. Existem profissionais incluídos nas equipas de tratamento destes tumores, a nível hospitalar, que executam um trabalho de reabilitação muito importante e por vezes esquecido.

MO | Como vê o futuro do cancro de cabeça e pescoço em Portugal?

LR | Seguramente bem menos sombrio e com melhores possibilidades terapêuticas, não só no que diz respeito à Oncologia Médica, mas também com todo o avanço das técnicas cirúrgicas e de radioterapia que também têm vindo a acontecer.

MO | Há mais algum assunto que queira destacar?

LR | É ainda necessário relembrar a importância da educação da população e dos clínicos não diretamente relacionados com a Oncologia, no sentido do despiste desta doença em fases precoces, quando são potencialmente curáveis. Infelizmente ainda chegam aos hospitais doentes com tumores localmente avançados, mesmo os visíveis, os da cavidade oral. Nunca esquecer que uma “ferida” na boca de um doente que não se resolva sob tratamento sintomático ao fim de 15 dias deverá ser orientado para observação por um otorrinolaringologista ou estomatologista.

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