segunda, 15 janeiro 2018 12:53

A evolução das terapêuticas no tratamento do melanoma avançado BRAF-mutado

A Dr.ª Maria José Passos, presidente do Intergrupo Português de Melanoma e oncologista no IPO Lisboa, concedeu uma entrevista ao My Oncologia, onde enfatizou os perfis dos novos tratamentos, que revolucionaram a esperança média e qualidade de vida dos doentes. A especialista realçou ainda a importância da comparticipação e da facilidade de acesso aos fármacos inovadores, partilhando que atualmente decorrem ensaios clínicos, em tripla combinação de agentes-alvo e imunoterapia, com o objetivo de se testar a possibilidade do aumento da eficácia, sem afetar a segurança.

My Oncologia (MO) | No melanoma, cerca de metade dos doentes sofre uma mutação no gene BRAF, que se torna responsável pela proliferação da atividade tumoral. Para fazer face a isto, têm sido desenvolvidas terapêuticas-alvo, sendo que hoje a prática clínica passa pela associação de inibidores BRAF e MEK no tratamento do melanoma avançado BRAF-mutado. De que forma é que estas com binações vieram revolucionar o paradigma desta doença?

Dr.ª Maria José Passos (MJP)| Estes agentes revolucionaram o tratamento dos doentes com melanoma metastizado BRAF-mutado que têm com frequência uma doença com comportamento agressivo, por vezes muito sintomática e que anteriormente evoluía de forma inexorável para a morte em poucos meses.
A doença BRAF-mutada atinge com mais frequência os adultos jovens e metastiza rapidamente para qualquer órgão, incluindo o cérebro. Os inibidores de BRAF e MEK, ao contrário das quimioterapias antineoplásicas, atuam rapidamente inibindo a via da MAPK, sendo também eficazes a nível da metastização cerebral. Adicionalmente, aumentam a sobrevivência livre de progressão e a sobrevivência global, transformando muitas vezes uma doença agressiva em doença crónica, com melhoria da qualidade de vida.

 

MO| Para além das terapêuticas-alvo, também as imunoterapias têm vindo a desempenhar um papel importante neste tipo de melanoma. Na sua opinião, quais os pontos fortes e fracos de cada um destes tratamentos?

MJP| O principal ponto forte das terapêuticas-alvo é a sua rapidez de ação, sendo por isso o tratamento de eleição para o melanoma metastático BRAF-mutado com comportamento clínico agressivo. Um ponto fraco destes tratamentos é a sua toxicidade, agora minimizada pelas combinações (BRAFi + MEKi), de que destaco a fototoxicidade, artralgias e aparecimento de outros tumores. Outro ponto fraco é o desenvolvimento de resistências, levando à progressão da doença.

Quanto à imunoterapia, o seu ponto forte é a duração da resposta à terapêutica. Outra vantagem da imunoterapia é a manutenção de resposta após suspender o fármaco, por exemplo em caso de toxicidade grave, o que é um aspeto interessante que nunca tínhamos observado anteriormente e além disso pode ser ativa em tumores BRAF mutados. O principal ponto fraco da imunoterapia é apresentar uma resposta mais tardia que as terapêuticas-alvo e por isso a doença BRAF-mutada agressiva deve ser tratada em 1.ª linha com a combinação BRAFi+ MEKi. Outro ponto fraco diz respeito às toxicidades imunológicas, sobretudo quando utilizada a combinação de inibidores de checkpoint. A maioria dessas toxicidades são facilmente controladas com corticoterapia, à exceção das endócrinas, que podem ser persistentes e exigir tratamento de substituição hormonal para toda a vida.

 

MO | Como imagina o futuro do tratamento do melanoma BRAF-mutado?
MJP | Encaro o tratamento destes doentes com otimismo, visto que os progressos têm sido rápidos e assinaláveis, sobretudo nos últimos anos. O aparecimento das terapêuticas-alvo, primeiro em monoterapia e depois, ainda mais eficazes, em combinação, e a imunoterapia mudaram completamente o futuro destes doentes. Há, no entanto, ainda muito aspetos a esclarecer e melhorar. Teremos que esperar pelos resultados dos ensaios clínicos, em tripla combinação, que decorrem neste momento e que associam imunoterapia e agentes-alvo. Precisamos saber por exemplo se haverá aumento da eficácia, sem grande aumento da toxicidade, com as novas combinações.

 

MO | Qual o impacto do reembolso de fármacos inovadores no tratamento do melanoma avançado a nível do quotidiano dos oncologistas e na vida dos doentes?

MJP| É muito importante que os fármacos inovadores obtenham reembolso, e que os doentes tenham acesso fácil a estes medicamentos a nível nacional. É preciso também que os profissionais de Saúde (médicos, enfermeiros e farmacêuticos hospitalares) conheçam bem o perfil de segurança dos fármacos no mundo real, ou seja, nos nossos hospitais, e reconheçam rapidamente as toxicidades raras e frequentes, de forma a tratá-las precocemente, de forma adequada. A existência de várias combinações eficazes, disponíveis para a mesma indicação, com diferentes toxicidades, pode ser uma mais-valia na escolha do tratamento, adaptado a cada doente. Por outro lado, após progressão com uma combinação, há possibilidade de rotação de diferentes combinações, permitindo mais alternativas eficazes de tratamento para os doentes com melanoma metastizado.

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