terça, 03 julho 2018 15:33

O potencial das biópsias líquidas na perspetiva do IPO do Porto

O Prof. Doutor Manuel Teixeira e a Dr.ª Marta Soares, respetivamente diretor do Serviço de Genética e oncologista coordenadora da Clínica de Pulmão do IPO do Porto, centro de excelência na área de Oncologia e Diagnóstico, disponibilizaram-se a explicar ao My Oncologia a aplicação atual da biópsia líquida na área clínica e o seu potencial.

My Oncologia (MO) | Atualmente, qual a aplicação da biópsia líquida na prática clínica do IPO do Porto?

Dr.ª Marta Soares (MS) | A biópsia líquida é usada para a monitorização e deteção de mutações de resistência no cancro do pulmão, por forma a determinar qual a melhor terapêutica em situação de progressão. No entanto, o diagnóstico da doença continua a ser feito a partir da biópsia do tumor.

Prof. Doutor Manuel Teixeira (MT) | Em relação ao cancro colorretal, com exceção da realização de biópsia líquida a um doente emigrante português operado a um cancro colorretal no Canadá, por indisponibilidade de acesso à peça tumoral, estamos sobretudo em fase de investigação, a analisar a taxa de concordância entre a biópsia do tumor e a biópsia líquida. Atualmente estão a decorrer alguns estudos europeus que avaliam, com base na monitorização por biópsia líquida, se doentes com cancro colorretal, inicialmente não elegíveis para a terapia dirigida anti-EGFR, podem receber essa terapêutica numa fase posterior. A comprovar-se essa hipótese, o IPO do Porto estará pronto para implementar a monitorização do cancro colorretal.

MO | Quais os pontos fortes e fracos da biópsia líquida em comparação com a biópsia tecidular?

MS | A biópsia líquida baseia-se na colheita de sangue, sendo por isso um procedimento simples, de fácil acesso e menos invasivo do que a biópsia tecidular, o que permite mais facilmente a monitorização da evolução da doença. No entanto, a principal questão é a sua sensibilidade. Quando o resultado é positivo, é quase certo que a doença existe, mas quando é negativo, não há garantia de ausência de neoplasia ou de progressão de doença.

MT | O potencial da biópsia líquida reside também no facto de no sangue estar presente o ADN tumoral circulante proveniente de várias lesões, o que permite ter uma imagem abrangente da heterogeneidade tumoral. A limitação, como já referiu a Dr.ª Marta Soares, é a sua sensibilidade não ser igual à da biópsia de tecido, em parte devido à reduzida fração de ADN tumoral circulante, cerca de 1% em termos globais. Por exemplo, no cancro do pulmão, aquando da progressão, o resultado da biópsia líquida é negativo em 1/3 dos doentes e, nessa situação, recorre-se à biópsia de tecido para confirmar o resultado obtido. No entanto, é muito bom conseguirmos evitar que 2/3 dos doentes sejam submetidos a uma biópsia tecidular de uma doença que está a progredir.

MO | A proporção de ADN tumoral circulante aumenta em função do volume da massa tumoral?

MS | Não é linear, depende também da localização do tumor primário e/ou metástases. Se a metástase for hepática liberta mais ADN para a circulação sanguínea do que se a metástase for óssea ou cerebral, por exemplo.

MT | Para além da localização da neoplasia e das metástases, também existe variação entre doentes, da quantidade de ADN tumoral libertada para o sangue.

MO | O IPO do Porto tem realizado muitas biópsias líquidas?

MS | Nestes dois anos, desde a aprovação da biópsia líquida para monitorização do cancro do pulmão, já muitos doentes beneficiaram desta técnica. A deteção da mutação T790M permitiu a mudança de terapêutica, com eficácia na regressão da neoplasia que estava em progressão.

MT | Dos testes de biópsia líquida para EGFR realizados no IPO do Porto, um pouco acima de 30% são amostras provenientes de outros hospitais, principalmente de Santa Maria da Feira.

MO | Qual a investigação associada à técnica da biópsia líquida desenvolvida no IPO do Porto?

MT | Por um lado, temos um projeto que compara três tecnologias que podem ser usadas na deteção de ADN tumoral circulante – qPCR, NGS e citometria de fluxo –  em termos de sensibilidade, custo, trabalho e tempo despendido para a obtenção do resultado. Por outro lado, temos, a longo prazo, o objetivo de estudar a possibilidade de utilização da biópsia líquida para o rastreio específico de famílias de alto risco com cancro do ovário e da mama hereditário ou com síndrome de Lynch, que predispõe sobretudo para o cancro colorretal hereditário. Estas doenças genéticas são heterogéneas, predispõem para vários tipos de cancro, mas o nome que as define normalmente é o da doença mais comummente desenvolvida ao longo do tempo. Contudo, as famílias com a doença do cancro da mama e ovário hereditário também têm um risco aumentado para o cancro do pâncreas, à volta dos 5%. Nestes casos não há rastreio eficaz, pelo que se conseguíssemos detetar precocemente esta doença no sangue periférico seria bastante útil. Para este projeto vamos usar a tecnologia que identificarmos como a mais sensível, para a deteção da mutação do gene KRAS, presente em 95% dos cancros do pâncreas. Não obstante, se conseguirmos detetar a mutação de forma precoce, teremos de descobrir a sua origem, porque embora frequente no pâncreas, não é exclusiva.

MS | Por esse motivo é que o estudo está dirigido para uma população selecionada e não para a população geral.

0008 IPO 06062018

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