terça, 24 julho 2018 10:19

“É na área do diagnóstico precoce da doença que se devia centrar a luta contra o cancro de cabeça e pescoço”

Para o Dr. Jorge Rosa Santos, diretor do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do IPOLFG, “é na área do diagnóstico precoce da doença que se devia centrar a luta contra o cancro de cabeça e pescoço”, que sublinha o facto de uma grande percentagem destes doentes ser diagnosticada em estadios muito avançados. Para tal, o especialista avança que seria necessário um maior investimento, sendo que “muito pouco tem sido feito por iniciativa do poder central”.

My Oncologia (MO) | Como carateriza o panorama do cancro de cabeça e pescoço em Portugal atualmente?

Dr. Jorge Rosa Santos (JRS) | O panorama não é substancialmente diferente da restante Europa. Na luta contra a doença oncológica, o cancro de cabeça e pescoço sempre foi o parente pobre, havendo um enorme desconhecimento da doença, não só por parte da população como dos profissionais de saúde. Isso foi muito evidente num estudo europeu que procurou avaliar o conhecimento entre a população e profissionais. Os resultados foram dececionantes.

Em 2010 foi criado em Portugal o Grupo de Estudos de Cancro de Cabeça e Pescoço (GECCP), com o objectivo de promover, apoiar, colaborar e realizar iniciativas de caráter formativo e educacional, técnico, científico e investigacional. Pretendia-se alertar para a necessidade de as lesões serem diagnosticadas em estadios mais precoces, quando existe uma possibilidade de tratamento curativo com mutilação mínima e evitar comportamentos de risco para o cancro de cabeça e pescoço.

O GECCP integrou-se posteriormente na Sociedade Europeia (EHNS) e posteriormente na Federação Internacional de Oncologia de Cabeça e Pescoço (IFHNOS) e, conjuntamente com estas entidades, tem vindo a efetuar diversas campanhas de sensibilização para este tipo de cancro.

Sob o ponto de vista epidemiológico, o cancro de cabeça e pescoço é o sexto mais frequente na Europa, com mais de 150.000 doentes diagnosticados. Esta prevalência tem-se mantido estável apesar do esforço efetuado na prevenção primária, com a sensibilização dos diferentes fatores de risco, essencialmente os hábitos tabágicos e etanólicos e a infeção por HPV.

Acresce ainda o facto de que, dos doentes enviados aos Centros de Referência, uma grande percentagem continua a apresentar estadios avançados da doença, pelo que a taxa de mortalidade global se mantém elevada.

É na área do diagnóstico precoce da doença que se devia centrar a luta contra o cancro de cabeça e pescoço, já que os resultados seriam bem melhores e os custos terapêuticos, sociais e humanos bem menores. Tratar situações avançadas de doença tem custos elevadíssimos e um peso social gigantesco.

MO | Foi lançada, em 2016, uma petição pública para que o SNS cobrisse os gastos da reabilitação oral em doentes com cancro de cabeça e pescoço. O objetivo – permitir a reabilitação oral a estes doentes tratados de forma gratuita no SNS – foi alcançado?

JRS | Nunca foi alcançado. A reabilitação dos doentes operados a cancro oral é difícil, tem muitas limitações, é caro e as verbas postas à disposição nesse programa eram, à partida, insuficientes para essa ciclópica tarefa. Penso que foi mais uma medida politicamente correta, mas que não trouxe qualquer mais-valia para a recuperação destes doentes.

MO | Já a 16 de dezembro de 2016, foi assinado o protocolo entre o GECCP e o ministério da Saúde, que permitia pôr em prática o projeto-piloto de reabilitação oral destes doentes. Qual é, de facto, a contribuição do SNS nestes casos?

JRS | Na prática nada mudou. O GECCP tentou sensibilizar os responsáveis políticos para esta necessidade mas nada passou do papel. O GECCP, na sua bondade, foi ingénuo, avalizando uma manobra de propaganda do governo. Os doentes continuam a ser operados em fases avançadas da doença, muitas vezes sem que as instituições tenham capacidade para numa primeira intervenção reconstruir os doentes, situação fundamental para que a reabilitação oral possa ser possível numa fase posterior. Isto por falta de recursos logísticos, técnicos e humanos. Os poucos que podem ser submetidos a uma reabilitação oral esbarram com uma parede quase intransponível e resta-lhes, se têm recursos financeiros, recorrer a serviços externos não pagos pelo SNS.

MO | Desde a petição inicial, o que mudou?

JRS | Lamento dizer isto, mas, na minha opinião, nada. A petição e o protocolo com o GECCP caíram em saco roto.

MO | Quais são os requisitos que têm de ser cumpridos para que um doente com cancro de cabeça e pescoço consiga ter acesso aos apoios por parte do SNS para a reabilitação oral?

JRS | Que aos hospitais fossem dados recursos técnicos e humanos que permitissem reabilitar estes doentes. Isso implicaria um custo financeiro para o SNS. Os hospitais públicos estão subfinanciados. Os gastos do Estado com a saúde têm sido muito mal orientados, voltando-se prioritariamente para as áreas de prestação fora do serviço público de saúde, e financiando as instituições privadas através de sistemas de saúde públicos, como a ADSE, reduzindo os gastos no SNS público.

MO | De que forma é que o IPO Lisboa se relaciona com esta causa?

JRS | Não posso falar em nome do IPO de Lisboa, mas a minha relação pessoal com este problema não pode deixar de ser péssima, associando-se a uma enorme crítica à política de saúde implementada. Note-se que esta situação não é exclusiva desta tutela, cruzando transversalmente as diversas governações.

MO | No âmbito do Dia Mundial do Cancro de Cabeça e Pescoço, que se assinala no próximo dia 27 de julho, como prevê o futuro da reabilitação oral destes doentes em Portugal?

JRS | No imediato e a médio prazo, não prevejo nada de bom, acompanhando na minha previsão tudo o que penso de Portugal e da progressiva degradação do SNS.

MO | O IPO-Lisboa pretende assinalar o Dia Mundial do Cancro de Cabeça e Pescoço com alguma iniciativa?

JRS | O IPO de Lisboa e o Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, que tenho honra de dirigir, assinala esta data com mais um dia de trabalho inteiramente dedicado aos doentes.

Para nós, todos os dias são Dia Mundial do Cancro de Cabeça e Pescoço. No meu caso, faço-o há 36 anos, 365 dias por ano.

MO | Há mais algum assunto que queira destacar?

JRS | O cancro de cabeça e pescoço tem ocupado a minha vida profissional desde há trinta e seis anos. O grau de frustração que sentimos ao depararmo-nos com os mesmos problemas que encarávamos no século passado é dececionante.

Seria essencial estabelecer objetivos na luta contra o cancro de cabeça e pescoço. Seria necessário um suporte ativo nas campanhas de sensibilização para este tipo de cancro; a necessidade de incrementar as verbas disponíveis para investigação; a necessidade de promoção de guidelines, assegurando o exercício da excelência no tratamento destes doentes; assegurar a multidisciplinaridade na abordagem destes tumores, tanto com a presença de médicos e médicos dentistas, como enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e nutricionista; promover a cultura da reabilitação pós-terapêutica e a promoção da reinserção social e profissional; e assegurar a necessidade do apoio psicológico nos programas de reabilitação.

Para tudo isto seria necessário investimento. Muito pouco tem sido feito por iniciativa do poder central. Se os doentes acabam por ser tratados deve-se exclusivamente à extraordinária resiliência dos profissionais de saúde que conseguem, com enorme esforço, ultrapassar todas as dificuldades com que permanentemente se deparam.

 

Dr. Jorge Rosa Santos, diretor do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do IPOLFG

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