quarta, 25 julho 2018 16:38

Cancro de cabeça e pescoço: é necessário "investir na prevenção, diagnóstico precoce e reintegração dos doentes na comunidade"

Para uma atualização do estado da arte do cancro de cabeça e pescoço, o My Oncologia contou com a colaboração de especialistas da Clínica de Cabeça e Pescoço do IPO-Porto, uma “estrutura de ambulatório centralizada no doente, onde as várias especialidades envolvidas no seu tratamento e reabilitação desenvolvem o seu papel”. Em entrevista, o Dr. Jorge Guimarães, coordenador da Clínica, e as Dr.ªs Cláudia Araújo e Cláudia Vieira, oncologistas cirúrgica e médica, respetivamente, do IPO-Porto, sublinham a importância de lutar por “um diagnóstico e tratamento precoces, que poderão melhorar as taxas de sucesso”.

My Oncologia (MO) | Qual a importância da abordagem multidisciplinar do cancro de cabeça e pescoço?

O cancro de cabeça e pescoço é o exemplo paradigmático de interdisciplinaridade ao longo do percurso do doente: desde o momento do diagnóstico, onde médico dentista ou médico assistente têm um papel primordial para o diagnóstico precoce; à fase de reabilitação, onde a Medicina Física e a Estomatologia são fundamentais; passando obviamente pelo tratamento, onde a Cirurgia, a Otorrinolaringologia (ORL), Cirurgia Plástica, Radioterapia e Oncologia Médica se articulam de acordo com o estadio da doença. Pelo caminho cruzam-se outras especialidades e áreas profissionais, como a Radiologia, a Anatomia Patológica, a Nutrição, a Enfermagem e outros, onde a diferenciação técnica e experiência fazem toda a diferença.

MO | Na ASCO 2018, anteciparam-se alterações no modo de abordagem do doente, que pretende avaliar o seu percurso de forma sequencial, acrescentando à equação terapêutica outras variáveis, como a combinação da cirurgia com radioterapia no mesmo ensaio. Qual a vossa opinião sobre esta nova forma de abordar o tratamento?

O tratamento dos tumores da cabeça e pescoço, pelas estruturas anatómicas envolvidas e pela agressividade dos mesmos, envolve habitualmente várias formas de tratamento sequencial: cirurgia, radioterapia e quimioterapia e/ou imunoterapia. A sequência ideal deve ser definida caso a caso. Em Portugal, dois em cada três doentes com cancro de cabeça e pescoço são diagnosticados em estado avançado, pelo que a maioria não viverá mais do que cinco anos.

A maioria das orientações internacionais defende a inclusão de doentes em ensaio clínico, particularmente em estadio avançado. Os resultados desse ensaio clínico da ASCO 2018, como de vários outros em curso, poderão ajudar a melhorar o prognóstico destes doentes. Contudo, na nossa realidade a principal batalha é por um diagnóstico e tratamento precoces, que poderão melhorar as taxas de sucesso.

MO | Também na ASCO 2018, foi apresentado um novo estudo que sugere que mulheres com tumores da cabeça e pescoço recebem menos tratamento e têm piores outcomes do que os homens. Os resultados, embora específicos da Califórnia, revelam disparidades alarmantes neste tipo de cancro, que devem ser endereçadas nas discussões de tratamento da doença no contexto da prática clínica. Estes resultados podem ser extrapolados para a realidade portuguesa?

A realidade portuguesa é diferente. A maior taxa de incidência e a maior taxa de mortalidade são no sexo masculino. Os hábitos tabágicos e alcoólicos são ainda os fatores de risco mais importantes. A epidemiologia destes tumores é diferente da dos EUA. Em Portugal mantemos taxas de incidência e mortalidade das mais elevadas da Europa. O homem é mais afetado, com uma incidência bruta (em 2015) de 52 casos por 100 000 habitantes/ano (apenas oito mulheres/100 000 habitantes/ano) e uma taxa de mortalidade de 20 homens por 100 000 habitantes/ano (três mulheres/100 000 habitantes/ano).

MO | Qual o potencial da medicina de precisão no cancro de cabeça e pescoço?

A inovação na área de carcinoma espinocelular da cabeça e pescoço é menos frequente do que em neoplasias com maior incidência populacional. O IPO-Porto tem tido a oportunidade de participar em ensaios clínicos de recrutamento mundial e assim dar o seu contributo para aprovação de novos fármacos, nomeadamente do foro da Imuno-Oncologia, como o nivolumab e pembrolizumab. Contudo, é necessário ainda identificar biomarcadores e eventualmente novos fármacos-alvo que permitam uma verdadeira medicina de precisão.

MO | Como está organizada a Clínica da Cabeça e Pescoço do IPO-Porto? Qual o papel da Clínica na reabilitação destes doentes?

A Clínica de Cabeça e Pescoço é uma estrutura de ambulatório centralizada no doente, onde as várias especialidades envolvidas no seu tratamento e reabilitação desenvolvem o seu papel. Sendo o mesmo espaço físico, isto é sobretudo articulado pelo Serviço de Enfermagem e Assistentes Operacionais, que mantêm um contacto e acompanhamento mais personalizado com o doente. O Serviço Social, integrado na Clínica, é também uma peça central na integração do doente entre o hospital e o seu meio familiar/social. Em termos de recuperação funcional do doente, é facilmente percetível que a presença da Estomatologia e Medicina Física na Clínica facilita a reabilitação.

MO | O IPO-Porto tem instalada no seu edifício a Associação dos Amigos dos Doentes com Cancro Oral (ASADOCORAL). Como visionam o trabalho desempenhado por esta instituição?

A missão da Associação é abrangente e toca aspetos desde a prevenção à reabilitação. Tem tido um papel muito ativo na promoção do diagnóstico precoce e tem também dado voz aos sobreviventes e aos desafios que eles experienciam. Do ponto de vista do clínico, são efetivamente uma ajuda preciosa no apoio a novos doentes, seus familiares e cuidadores.

MO | Como assinalou o IPO-Porto o Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço?

Durante a semana onde se inseriu o Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço, o IPO-Porto organizou uma ação de formação intensiva para cerca de 200 profissionais de saúde (médicos de família, médicos dentistas e enfermeiros), de 24 a 26 de julho. O Instituto pretendeu sensibilizar e formar os profissionais de primeira linha para que possam intervir sobre os fatores de risco e identificar precocemente os sintomas da doença.

O Instituto criou ainda uma linha direta de comunicação com estes profissionais para que possam enviar, por correio eletrónico (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.), fotografias e exames para partilharem e esclarecerem dúvidas com os oncologistas da Clínica de Cabeça e Pescoço.

MO | Há mais algum assunto que queiram destacar?

Consideramos fundamental estreitar a relação entre a Instituição e os cuidados de saúde primários, de forma a mudarmos o paradigma do cancro de cabeça e pescoço, garantindo um investimento máximo na prevenção, diagnóstico precoce e reintegração destes doentes na comunidade.

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