terça, 04 outubro 2016 12:57

Conferência “Walk The Innovation” reúne especialistas em torno da Imuno-Oncologia

Enquadrada na Global Health Conference 2016, decorrida no dia 1 de outubro na Meo Arena, em Lisboa, a conferência Walk The Innovation reuniu reputados especialistas em diversos domínios da prática oncológica sob o mote “Bringing future to the present”, centrado no tema incontornável da imunoterapia no tratamento do cancro.

Doentes portadores de certas formas de cancro, para as quais se pensava não existirem mais soluções para contrariar a progressão inexorável da doença, têm agora novas opções no seu arsenal terapêutico.

O advento da imuno-oncologia abriu um novo caminho, a que a investigação vai juntando pequenas peças, num grande puzzle em que o hospedeiro, através da ativação do seu sistema imunitário, é o centro do combate, em vez de o tumor. Assim saudou os participantes o Dr. Jorge Soares, da Fundação Calouste Gulbenkian, chairman da sessão.

Inaugurando a conferência, o Prof. Dr. Luís Costa, do Hospital de Santa Maria, moderou a sessão ‘Inibidores de Checkpoint Imunitários - Da Descoberta ao Futuro’, conduzida pelo Doutor Jean-François Pouliot, International Medical Lead da MSD para o pembrolizumab no cancro do pulmão e novas indicações.

O especialista explicou como, durante infeções, a proteína de morte celular programada 1 (PD-1) limita a ação citotóxica dos linfócitos T, ligando-se a ligandos como o PD-L1 e evitando que o sistema imunitário danifique tecidos saudáveis. No entanto, os tumores também têm a capacidade de expressar à superfície estes ligandos, evadindo-se à ação dos linfócitos T. Os novos fármacos do arsenal imunoterapêutico têm a capacidade de bloquear esta interação ao nível do linfócito T, restaurando a imunidade normal e desencadeando a destruição do tumor.

Revisão compreensiva do estado da arte nas imunoterapias oncológicas

Focando a utilização destes agentes monoterapia, e especificamente no cancro do pulmão, o Doutor Jean-François Pouliot fez uma revisão compreensiva do estado da arte nas imunoterapias oncológicas, onde têm sido observados resultados de eficácia e durações de resposta sem precedentes até à data.

Os primeiros resultados foram observados em melanoma, um dos tumores com carga mutacional mais elevada, onde aproximadamente 72% dos doentes demonstraram beneficiar de imunoterapia com anti-PD-1, independentemente da expressão prévia a anti-CTLA-4. Seguiram-se resultados encorajadores no cancro do pulmão, um dos tumores com maior incidência e mortalidade.

Atualmente, a imunoterapia está aprovada para o tratamento clínico de melanomas e tumores do pulmão, antecipando-se que venha a ser aprovada em várias outras indicações. 

“Entre vários resultados que têm surgido recentemente, os mais recentes evidenciam um benefício de sobrevivência livre de progressão (PFS) e de sobrevivência global (OS) para o pembrolizumab em relação à quimioterapia com platinos, até à data o standard of care no tratamento em primeira linha do cancro do pulmão de não-pequenas células (CPNPC) avançado”, salientou o orador.

“Inibidores de checkpoint imunitários são um novo standard of care para doentes com CPNPC”

Numa mesa moderada pela Dr.ª Fátima Carneiro, do Centro Hospitalar de São João e IPATIMUP/IS3, pela Dr.ª Deolinda Pereira, do IPO – Porto, e pelo Dr. Venceslau Hespanhol, do Centro Hospitalar de São João, o Dr. Fernando Barata, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, prosseguiu a conferência, partilhando o seu conhecimento sobre ‘Seleção de Doentes - Biomarcadores e Critérios Clínicos’, com incidência no cancro do pulmão, a sua área de especialização.

“Os inibidores de checkpoint imunitários são um novo standard of care para doentes com CPNPC avançado que progrediram após quimioterapia com platinos, com um benefício potencialmente duradouro”, salientou o pneumologista.

Desde os primeiros resultados animadores de nivolumab versus docetaxel em doentes com CPNPC previamente tratados, os estudos subsequentes com pembrolizumab têm demonstrado uma elevada eficácia em doentes com expressão de PD-L1. Em particular, a expressão elevada deste biomarcador (> 50%) associa-se a outcomes muito favoráveis com o pembrolizumab, traduzidas em elevadas taxas de resposta e sobrevivências globais muito aumentadas.

O ensaio KEYNOTE-010 foi emblemático pelos seus resultados extraordinários. O estudo avaliou as doses de 2 mg/kg q3w e 10 mg/kg q3w de pembrolizumab durante 24 meses na 2ª linha de tratamento de doentes com CPNPC avançado e expressão de PD-L1, evidenciando um expressivo benefício de OS, PFS e taxa de resposta (ORR) em relação ao docetaxel. De forma notável, o benefício a favor do pembrolizumab foi independente do sexo, idade, presença ou não de sintomas, histologia (escamosa vs. não escamosa) e tipo de amostra (de arquivo ou re-biópsia). Adicionalmente, os eventos adversos (EA) de grau 3–5 relacionados com o tratamento foram menos comuns com pembrolizumab.

Encontra-se neste momento a decorrer o estudo KEYNOTE-021, de pembrolizumab mais quimioterapia em 1ª linha de tratamento do CPNPC avançado com expressão de PD-L1, cujos resultados são aguardados com expetativa, e também ensaios clínicos com outros inibidores imunitários e novas associações, que podem expandir a utilidade destes agentes na prática clínica.

Eficácia e avaliação de resposta dos novos agentes

A Dr.ª Maria José Passos, do IPO – Lisboa, trouxe questões da prática clínica real para endereçar as questões de eficácia e avaliação de resposta com os novos agentes.

Expôs, assim, o caso clínico de um doente com melanoma avançado que, após interromper terapêutica com um inibidor BRAF (BRAFi) e um inibidor MEK (MEKi), iniciou um anti-PD-1. Não foram observados EA imunitários relevantes, tendo sido registada uma melhoria progressiva da astenia de grau 2 e dos sintomas depressivos que o doente registava. Após ter completado 8 ciclos de imunoterapia, o doente encontra-se com um ECOG PS 0, fazendo a sua vida ativa como professor universitário, tendo registado uma diminuição significativa da LDH para 120. Regista ainda resposta metabólica completa com gânglios inflamatórios cervicais.

“No melanoma, os doentes com expressão positiva de PD-L1 colhem maior benefício com as imunoterapias, mas o facto de alguns doentes PD-L1 negativos (< 5%) também responderem sublinha a necessidade de mais investigação no campo dos biomarcadores”, salientou a oncologista médica, referindo ainda que a LDH é um biomarcador preditivo de outcomes robusto em imunoterapia.

“O caso clínico apresentado sustenta o racional para fazer bloqueio de checkpoint antes de terapêutica com BRAFi mais MEKi em doentes com melanoma agressivo e LDH elevada, na medida em que estes doentes podem registar respostas mais duradouras ao bloqueio do PD-1 do que à referida associação”, concluiu.

A especialista chamou ainda a atenção para o facto de que a avaliação da resposta no contexto das imunoterapias ser diferente da que é feita no contexto dos citostáticos, na medida em que aquelas têm respostas duradouras e tardias. Consequentemente, o crescimento das lesões não é sinónimo de progressão da doença, mas sim de resposta, razão pela qual se deve “aguardar 8 semanas com os anti-PD-1 e 12 semanas com o ipilimumab antes de fazer a avaliação da resposta”.

Em conclusão, os anti-PD1 (nivolumab e pembrolizumab) são superiores ao ipilimumab em sobrevivência livre de progressão (PFS) e taxa de resposta global (ORR) e, embora ainda seja necessário mais tempo de follow-up, aparentemente também em sobrevivência global (OS). Adicionalmente, são fármacos ativos em primeira linha e em doente previamente tratados com ipilimumab, sendo igualmente ativos em doentes com metastização cerebral. Constituem ainda a primeira escolha terapêutica em doentes BRAF wild-type e, provavelmente, também em alguns doentes BRAF mutados.

Gerir eventos adversos decorrentes das imunoterapias

A Dr.ª Ana Raimundo, do IPO – Porto, detalhou a gestão de eventos adversos (EA) de tipo autoimune decorrentes das imunoterapias, salientando o perfil de toxicidade característico deste tratamento, que pode manifestar-se anos após a interrupção do mesmo.

Os EA autoimunes mais comuns afetam sobretudo a pele e consistem em rash com eritema e prurido (28 – 37%) e vitiligo (9 – 11%) na maior parte dos casos. Outros órgãos frequentemente afetados são o trato gastrointestinal (diarreia aquosa, colites), fígado, órgãos endócrinos (sobretudo fadiga, mas também sede ou aumento do apetite), trato respiratório (dispneia, tosse) e sistema neurológico (cefaleias, confusão, fraqueza muscular).

“A maioria dos EA são ligeiros, mas cerca de 10% dos doentes tratados com anti-PD-1 desenvolve EA de graus 3/4, e as associações acarretam toxicidades mais elevadas”, explicou a oncologista do Porto.

Os EA devem ser tratados sintomaticamente, equacionando a suspensão/descontinuação da imunoterapia em função da gravidade dos mesmos. O tratamento passa, primariamente, pela corticoterapia e, em situação mais graves, pelo apoio de outras especialidades e, eventualmente, administração de outras drogas imunossupressoras mais potentes.

“Os EA de grau 1 têm indicação para manter a imunoterapia, fazendo tratamento sintomático e vigiando, os EA de grau 2 têm indicação para atrasar a administração da terapêutica (5–7 dias) e tratar os sintomas e os EA de graus 3/4 têm indicação para suspender o tratamento e hospitalizar”, detalhou.

O Prof. Dr. Dirk Arnold, diretor do Instituto CUF de Oncologia, encerrou a conferência com o tema dos ‘Cuidados Centrados no Doente em Imuno-Oncologia’. Numa sessão moderada pela Dr.ª Ana Maria Nogueira, Country Medical Affairs Director MSD, o especialista médico frisou a importância da participação do doente na decisão clínica, debatendo o tratamento oncológico com intenção curativa vs. não-curativa ou paliativa, e sublinhando como o endpoint considerado prioritário pelos médicos - a sobrevivência global - nem sempre o é para os doentes, que valorizam tanto ou mais a sua qualidade de vida.

PUB

Planning

Onco Planning

Newsletter

Receba a nossa newsletter.

APOIOS:
.......................

BMSMerckMSDPfizerRocheTakeda Oncology