segunda, 26 março 2018 16:09

Atualização do tratamento do TEV em doentes oncológicos

A primeira edição do Venous Tromboembolism and Cancer, reunião científica internacional promovida pelo Grupo de Estudos Oncológicos, com o apoio do IPO-Porto e patrocínio científico da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), decorreu no dia 9 de março, no IPO-Porto, tendo como foco o tromboembolismo venoso (TEV) associado à doença oncológica. Veja a galeria de fotografias do evento.

A prevalência de TEV entre doentes com cancro ascende aos 30%, representando a segunda principal causa da sua mortalidade, logo a seguir à própria doença oncológica. Se sobreviventes a um incidente tromboembolítico, a grande maioria dos doentes vê a sua qualidade de vida severamente comprometida. Segundo dados preliminares do estudo prospetivo observacional ARTE (Avaliação de Risco de Tromboembolismo Venoso), em Portugal existe uma grande proporção de doentes hospitalizados em risco de tromboembolismo e, embora a tromboprofilaxia seja já aplicada a um número significativo destes doentes, “ainda não está no limiar daquilo que seria desejável, tendo em conta a avaliação individualizada e as contraindicações”, esclareceu a Dr.ª Ana França, do Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST). Este estudo revelou ainda uma maior prevalência de eventos trombóticos nas unidades de Oncologia e de Medicina Interna, quando comparadas com as unidades de Cirurgia e Ortopedia, sendo que a realidade dos doentes em ambulatório é ainda praticamente desconhecida.

Muito embora considerada uma doença de fácil prevenção - através de tratamento profilático adequado - os modelos atuais de estratificação de risco de TEV aplicados a doentes de ambulatório estão aquém da sensibilidade clínica idealizada, segundo destacou o Dr. Andrés Muñoz, médico oncologista no Hospital General Universitario Gregorio Marañon, em Madrid, Espanha, e keynote speaker desta reunião, que deu o mote à extensa discussão em torno dos mais recentes updates clínico-científicos nesta área.

Histórico familiar e oncogenes como novas ferramentas nos modelos preditivos de TEV

Segundo o Dr. Andrés Muñoz, a par de fatores de risco como o local e o estádio do tumor, o número de plaquetas e leucócitos pré-quimioterapia, a concentração de hemoglobina e o índice de massa corporal (incluídos na escala preditiva de Khorana, amplamente utilizada nesta especialidade), a hereditariabilidade, até agora negligenciada, assim como outros fatores do foro genómico - oncogenes identificados com elevada precisão, e.g. rearranjo do gene ALK no carcinoma pulmonar avançado de não pequenas células (NSCLCs) - passarão a ter um papel preponderante nas versões atualizadas dos modelos de estratificação destes doentes. Estes novos modelos preditivos clínico-genéticos virão ajudar a uma tomada de decisão mais rápida e assertiva por parte dos clínicos, relativamente aos doentes que poderão ou não beneficiar de profilaxia primária contra o tromboembolismo. Como nota importante, o especialista salienta ainda que o timing das terapias tromboprofiláticas é determinante do prognóstico nestes doentes – quando o tratamento é aplicado nos primeiros três a seis meses imediatamente após o diagnóstico da doença oncológica, a taxa de sobrevida aumenta significativamente.

Ainda no contexto da Medicina preditiva, deu-se destaque a um crescendo nos estudos fundamentais em torno da identificação de biomarcadores, que possam ser co-adjuvantes na identificação de doentes oncológicos com alto risco de trombose. Alguns destes biomarcadores foram já incluídos em modelos preditivos, que aguardam validação em ensaios clínicos prospetivos (P-selectina, D-dimero e fragmento 1+2 da protrombina). Estes estudos moleculares de elevada especificidade virão permitir uma adequação superior das terapêuticas caso a caso - uma necessidade incontornável num senário de tão elevada heterogeneidade e de consequente complexa gestão clínica.

Atualização das recomendações gerais para o tratamento de TEV em doentes oncológicos

Aquando da sua intervenção, a Dr.ª Ana Pais, presidente do Grupo de Estudos de Cancro e Trombose (GESCAT), relembrou que existe atualmente uma grande diversidade de recomendações nacionais e internacionais (ESMO, ASCO, ITAC, ISTH, ACCP, ESA, ITAC-CME, GESCAT, APCA, etc), que vão sofrendo atualizações periodicamente, sendo responsabilidade do profissional de saúde manter-se atualizado, por forma a poder adequar o tratamento ou a profilaxia caso a caso, de acordo com a melhores práticas clínicas disseminadas até ao momento. A especialista apela ainda a uma atitude criteriosa na leitura e seleção das recomendações, com especial atenção para o grau de evidência clínica associado às mesmas: “As recomendações são tão boas quanto a evidência clínica e científica que as suporta”. A médica apresentou de uma forma exaustiva as mais relevantes atualizações verificadas desde 2016, a grande maioria dedicada a casos clínicos especiais.

Estudo retrospectivo da incidência de TEV no carcinoma do pulmão de células não pequenas ALK+

Por fim, deu-se ainda especial destaque ao carcinoma com rearranjo do gene ALK, um subtipo muito específico e raro de cancro de pulmão, pela Dr.ª Nerea Muñoz, do Hospital Universitário 12 de Octubre, Espanha. A oncologista médica veio apresentar o estudo retrospetivo multicêntrico, que contou com a participação de 30 instituições, entre as quais o IPO-Porto, incluindo um total de 241 jovens doentes (46-65 anos), com estádio avançado da doença (grau III/IV). O estudo revelou uma elevadíssima taxa de incidência de tromboembolismo neste subgrupo de doentes (30%), sendo particularmente prevalente em casos com metástases no fígado ou leucocitose. Dado o alto risco de mortalidade associado ao tromboembolismo, a especialista vem enfatizar a necessidade de especial atenção para os doentes ALK+, sugerindo a prescrição profilática de anticoagulantes. Ressalva, no entanto, que esta solução pode não ser a mais adequada para todos os casos – em doentes com metástases cerebrais (também comum nestes doentes), com especial risco de hemorragia, será certamente contraindicada.

Galeria de Imagens

PUB

Planning

Onco Planning

Newsletter

Receba a nossa newsletter.

APOIOS:
.......................

BMSMerckMSDPfizerRocheTakeda Oncology