terça, 16 outubro 2018 11:02

Doentes com cancro recorrem a medicamentos alternativos complementares sem conhecerem os riscos associados

Uma equipa de investigadores do Hospital Universitário de Mannheim, Alemanha, investigou, ao longo de quatro meses (1 de janeiro a 30 de abril de 2018), tipos e modos de utilização de terapias não convencionais em 152 doentes em ambulatório com sarcoma, tumor de estroma gastrointestinal (GIST) e tumores desmóides, que estavam a receber tratamento num centro de sarcoma. O estudo, que vai ser apresentado no Congresso da European Society of Medical Oncology (ESMO 2018), concluiu que os doentes com sarcoma apresentam uma grande abertura ao uso de medicamentos alternativos complementares (CAMs) para cuidados de suporte, mas estão mal informados sobre questões de segurança e risco de interações com fármacos anticancerígenos.

Os investigadores consideraram CAMs como uma ampla gama de práticas, incluindo suplementação de vitaminas ou minerais, ervas curativas chinesas, homeopatia, acupuntura, meditação, yoga, Tai Chi ou mudanças nos hábitos alimentares, como mudar para uma dieta cetogénica ou vegana. Os principais resultados mostraram que 51% dos participantes usaram métodos alternativos ao longo da vida e 15% deles apenas durante a doença, paralelamente aos tratamentos de cancro. Além disso, o diagnóstico de cancro mostrou ter despertado o interesse dos doentes em CAMs em 44% dos participantes.

Os doentes mostraram-se seletivos nas suas escolhas, conforme refere o supervisor do estudo, Prof. Doutor Peter Hohenberger: “O que descobrimos é que as vitaminas e minerais são muito populares, mas os doentes tomam-nos especificamente, em vez de usar suplementos vitamínicos. A vitamina D está na posição de liderança, seguida do selénio mais zinco, vitamina C e o interesse pela vitamina B17 está a aumentar”.

Apesar da popularidade relatada de terapias não convencionais entre os doentes, ainda faltam informações claras sobre os seus efeitos colaterais e potenciais interações com outras drogas. Na pesquisa, 60% dos doentes reconheceram que as informações que tinham sobre questões de segurança das CAMs eram insuficientes, embora mostrassem pouca preocupação com possíveis riscos. “Quando analisámos as fontes de informação sobre práticas não convencionais, os oncologistas representaram apenas 7%. No nosso estudo, os doentes mencionaram repetidamente que estavam positivamente surpresos com o nosso interesse no uso de CAMs”, sublinha o Prof. Doutor Peter Hohenberger. E acrescenta: “Os doentes procuravam sobretudo informações sobre medicamentos complementares e alternativos na internet e outros media (43%), amigos (15%) e profissionais de cura (14%). Em nítido contraste com isso, quando se trata de encontrar informações sobre os efeitos colaterais das terapias contra o cancro ou sobre como lidar com elas, quase metade dos doentes perguntou ao seu oncologista”.

O Dr. Markus Joerger, do Hospital Cantonal em St. Gallen, Suíça, comenta os dados do estudo, referindo que a baixa perceção do risco associado às CAMs entre os doentes é um grande problema. “Os doentes tendem a acreditar que suplementos ou ervas são geralmente seguros, mas não estão isentos de riscos. Na prática diária, se o médico não sabe o que o seu doente está a tomar como medicina alternativa, o risco de interações medicamentosas pode aumentar significativamente e ter um impacto nos resultados clínicos”. O especialista acrescenta que os oncologistas deveriam tentar preservar o seu papel como fonte primária de informação para os doentes com cancro: “Embora não devamos demonizar a internet ou outras fontes de informação, a obtenção de informações fora do ambiente clínico pode muitas vezes ser enganadora. Os doentes têm que perceber que podem discutir com o seu oncologista qualquer escolha relacionada à saúde e ser aconselhados sobre diferentes opções quando desejam reduzir o stress relacionado ao tratamento do cancro ou, em geral, se sentir melhor”.

Conhecer as interações do tratamento anticancerígeno com medicamentos não convencionais

Outro estudo a ser apresentado no ESMO 2018 procurou fazer uma revisão retrospetiva que envolveu 202 doentes com sarcoma submetidos a quimioterapia ou inibidores de tirosina quinase. A investigação concluiu que 18% das principais interações medicamentosas ocorreram no período do estudo (2014-2018) e que a reconciliação da medicação, fazendo um inventário de todos os medicamentos prescritos e aconselhados aos doentes, é aconselhada antes do início do tratamento do cancro para prevenir efeitos adversos ou tratamentos ineficazes.

A autora principal da investigação, Dr.ª Audrey Bellesoeur, da Universidade Paris Descartes, França, refere que “sabemos, com base em pesquisas anteriores, que um em cada três doentes com cancro em ambulatório é suscetível a potenciais interações medicamentosas. Um melhor entendimento desses mecanismos é necessário hoje para um tratamento verdadeiramente personalizado”. No estudo, a interação medicamentosa mais frequentemente observada com inibidores da tirosina quinase, enquanto a gencitabina foi associada a um risco significativamente menor.   

A Dr.ª Audrey Bellesoeur acrescenta ainda que neste estudo “29% das interações medicamentosas que exigiram intervenções farmacêuticas foram associadas a medicamentos alternativos complementares. Os riscos das interações com medicamentos não convencionais são os mesmos que para outras comedicações, principalmente toxicidade aumentada e perda de eficácia dos tratamentos anticancerígenos. No entanto, muitas vezes temos menos informações sobre a composição desses produtos e o seu risco de toxicidade ou interação quando usados ​​em combinação com outros agentes”.

Segundo o Dr. Markus Joerger, caracterizar o risco de interações medicamentosas será cada vez mais relevante no futuro. “Uma vez que mais opções de cuidados estão disponíveis, os doentes estão a receber cada vez mais comedicações, mas ainda não são verificados rotineiramente quanto a interações medicamentosas. A revisão médica por um farmacêutico clínico pode certamente ser uma estratégia eficaz para evitá-los ou limitá-los, como mostrou o estudo”.  

“No entanto, os centros de Oncologia também devem investir em medicina integrativa que combine tratamentos médicos anticancerígenos com terapias não convencionais. O médico oncologista tem pouco conhecimento acerca desses métodos alternativos, o que se deve principalmente à falta de estudos e bancos de dados no campo. Mais esforços são necessários para entender como administrar tratamentos mistos com segurança e construir experiência para melhor orientar os nossos doentes”, conclui o Dr. Markus Joerger.

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