quarta, 02 janeiro 2019 11:48

Doentes oncológicos sentem que luta contra o cancro não é uma prioridade política

Mais de 70% dos doentes oncológicos inquiridos num estudo promovido pela Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) consideram que a luta contra o cancro não é uma prioridade para a classe política em Portugal.

A maioria (60%) sente ainda que lhes são exigidas demasiadas burocracias para ter acesso aos direitos que estão consagrados na lei. Estes e outros dados foram apresentados pelo Dr. Paulo Cortes, presidente da SPO, no 3.º Congresso Nacional de Prevenção Oncológica e Direitos dos Doentes da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC).

“Do planeamento da ação à qualidade dos cuidados” foi o tema em debate no segundo dia (10 de novembro) do 3.º Congresso Nacional de Prevenção Oncológica e Direitos dos Doentes, promovido pela Núcleo Regional do Norte da LPCC, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto.

A sessão, que contou com a preleção do Dr. Paulo Cortes, especialista em Oncologia Médica e coordenador da Unidade de Oncologia e do Hospital de Dia do Hospital dos Lusíadas Lisboa, foi moderada pela Dr.ª Cristiana Fonseca, psicóloga e coordenadora do Departamento de Educação para a Saúde na LPCC, bem como pela Dr.ª Monick Leal, diretora do Departamento de Voluntariado da Liga.

O Dr. Paulo Cortes apresentou aos presentes os resultados do inquérito “Cuidados de Saúde em Oncologia: a visão dos doentes”, realizado pela SPO, que analisou “a perceção dos doentes e sobreviventes de doença oncológica sobre os cuidados de saúde em oncologia”.

De acordo com o presidente da SPO, a maioria das 333 pessoas que participaram no inquérito são mulheres, entre os 40 e os 44 anos, da Grande Lisboa, casadas, com filhos, profissionalmente ativas, com antecedentes da mama, em vigilância no hospital, sendo que “60% tiveram a primeira suspeita que podiam ter cancro após ter sentido alguns sintomas, 27% numa consulta de rotina e apenas 8% tiveram a primeira suspeita num rastreio”.

O objetivo deste trabalho foi “tentar sinalizar quais eram as maiores preocupações dos doentes em relação à doença, qual o seu impacto no dia-a-dia, quais os fatores mais valorizados nos cuidados de saúde, nas consultas, nos tratamentos, analisar a importância do envolvimento dos doentes nas decisões de saúde e de tratamento, identificar as suas fontes de informação em caso de dúvidas sobre a doença e o tratamento e, ainda, avaliar o contexto português com outros países da União europeia”, começou por contextualizar o Dr. Paulo Cortes, defendendo que “sem a perspetiva dos doentes nunca conseguiremos olhar para o futuro e planear”.

Também numa alusão ao tema da sessão, a Dr.ª Cristiana Fonseca, tinha já salientado na introdução da sessão que “só conseguimos ter serviços de qualidade se estes forem planeados, se existirem metas e se soubermos à priori o que é que desejamos no final das nossas intervenções, seja uma intervenção clínica, seja psicológica e até de voluntariado”.

Doentes queixam-se de falta de investimento, burocracias e assimetrias regionais

De acordo com as respostas obtidas no inquérito da SPO, “56% dos doentes sentem que lhes são exigidas demasiadas burocracias para ter acesso aos direitos que lhe estão consagrados por lei” e, do total dos 333 inquiridos, “71% considera que a luta contra o cancro não é uma prioridade para a classe política em Portugal”. Já 60% acha que “o Governo não faz o investimento necessário para que os doentes tenham acesso às terapêuticas mais avançadas e eficazes”, sublinhou o Dr. Paulo Cortes.

O inquérito concluiu igualmente que a maioria dos inquiridos (63%) concorda que “existe a ideia, entre a população portuguesa, que os doentes oncológicos não têm acesso aos tratamentos mais avançados, porque estes são demasiados caros”.

Também a maioria (60%), está de acordo que, em Portugal, “existem demasiadas assimetrias regionais no que diz respeito à prevenção e tratamento do cancro”. E, ainda sobre o acesso, 64% disseram que preferem consultar o médico, em caso de dúvidas sobre doença e tratamento, com apenas três por cento a recorrem a associações de doentes, folhetos informativos e linhas de apoio com tal objetivo, dado que surpreendeu o preletor. “Fiquei surpreso, mas isto significa que as associações de doentes têm que fazer um melhor trabalho porque não estão a chegar às pessoas e as linhas de apoio têm de ser repensadas”, considerou o oncologista.

Morte é a principal preocupação

Em relação às maiores preocupações sentidas pelos doentes, a investigação revelou que a morte surge como a principal apreensão, com 32% a citá-la em primeiro lugar. Já em cerca de 25% dos casos a maior preocupação foi o impacto emocional na família e nos amigos mais próximos, bem como impacto físico da doença (também em 25% dos casos). Em menor escala, surgiu o impacto do tratamento (9%), na carreira profissional (6%) e o impacto financeiro, que ficou em último lugar (2%).

Quanto ao impacto da doença no dia-a-dia, os efeitos psicológicos sentidos, com um aumento dos níveis de ansiedade e humor, foram registados em 68% dos doentes, enquanto 60% elegeu o nível físico, com redução da mobilidade, náuseas e fadiga. Para 59%, esse impacto foi maior no desempenho profissional e na capacidade de trabalho.

Já entre os fatores que mais valorizam nos cuidados de saúde, surge, em primeiro lugar a satisfação com a equipa médica (42%), seguindo-se a comunicação e a relação com o profissional de saúde (22%) e, em terceiro lugar a reputação da unidade de saúde onde está a ser acompanhado (17%). Com menor importância é referido o custo dos meios de diagnósticos e tratamento e consultas (10%) e a reputação dos profissionais (6%), aspeto que o Dr. Paulo Cortes “esperaria ter tido uma valorização superior”.

Depois, novamente em termos da valorização dos cuidados de saúde, foi pedido aos inquiridos que classificassem, em grau de importância, os aspetos mais relevantes. A larga maioria (66%) respondeu que era o tempo de espera até ao tratamento após o diagnóstico, seguindo-se a qualidade do atendimento global (55%). Em terceiro lugar, como sublinhou o especialista, “surge novamente, e de forma consistente (53%), a disponibilização e acesso a informação sobre a doença e sobre o tratamento”. A facilidade na marcação de consultas e exames (47%) aparece em quarto lugar, seguindo-se o conforto e as condições da unidade de tratamento (38%), a privacidade (32%), o apoio psicológico (35%) e o apoio social (25%), em último lugar.

Nas consultas, a esmagadora maioria dos doentes (76%) está satisfeito com o tempo que o médico gasta nas consulta, sendo que 68% dá nota 10 – numa escala de 0 a 10 – para a importância do envolvimento dos doentes nas decisões relativas aos cuidados de saúde e tratamento.

A “clareza na comunicação e no esclarecimento da informação” são os aspetos mais valorizados na consulta (41%). Em segundo lugar segue-se a atenção e escuta ativa (20%) e a frontalidade, sinceridade e honestidade em terceiro lugar (13%).

Já quanto ao que mais valorizam no tratamento, 43% responde que é a eficácia, seguindo-se a segurança (39%), os poucos efeitos secundários (37%), manter as tarefas domésticas e familiares (21%), sendo que, como notou o preletor, “os doentes não se mostraram muito preocupados com o custo, duração ou comodidade”.

 “Ensinar o médico a comunicar com o doente e… o doente a comunicar com o médico”

Comentando os resultados do inquérito apresentado, a Dr.ª Monick Leal, diretora do Departamento de Voluntariado da LPCC, salientou a “necessidade de se fazer muito mais em relação a estes doentes, não só no aspeto emocional – pois sabe-se que o efeito psicológico e o impacto emocional é enorme -, bem como a outros níveis, nomeadamente laboral”.

“O cancro é uma doença cada vez mais crónica, as pessoas adoecem mais novas, mas também sobrevivem mais tempo, e, portanto, é preciso ajudá-las a regressar ao trabalho, nomeadamente através de uma educação no próprio posto de trabalho porque quer os colegas, quer os patrões muitas vezes desconhecem os efeitos dos tratamentos”, destacou a responsável.

A Dr.ª Monick Leal evidenciou igualmente a “importância da comunicação profissional/doente”, considerando “haver um grande trabalho a fazer para ensinar o médico a comunicar com o doente e, igualmente importante, ensinar o doente a comunicar com o médico, dando-lhe mais literacia”.

Falta comunicação e empatia na relação médico/doente

O Dr. Vítor Veloso, presidente da direção nacional da LPCC, sublinhou a necessidade de ser dado “um passo muito mais à frente para melhorar a satisfação do doente”, nomeadamente por parte da LPCC, na mudança da abordagem ao doente através de formas de comunicação mais atrativas.

O dirigente lamentou ainda “a falta de comunicação, a falta de informação, a pouca literacia e a pouca capacitação”, considerando que na base da maioria dos problemas detetados está “a falta de comunicação e de empatia na relação médico/doente”.

 

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