segunda, 12 novembro 2018 17:15

Mais de 40% dos doentes com cancro em Portugal não recebem o tratamento de radioterapia de que necessitam

A radioterapia é reconhecida como uma ferramenta essencial na cura e nos cuidados paliativos das doenças cancerígenas, sendo indicada em mais de metade dos novos casos de cancro e constituindo um elemento indispensável num programa de controlo de cancro. De acordo com o projeto HERO da European Society for Radiotherapy and Oncology (ESTRO), apesar do papel fundamental do tratamento do cancro por radioterapia, 41,2% dos doentes em Portugal não recebem a radioterapia necessária.

De acordo com o Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da Direção-Geral da Saúde, ao longo dos últimos anos, Portugal – tal como o resto da Europa – tem assistido a um aumento constante na incidência de cancro a uma taxa constante de cerca de 3% ao ano, principalmente devido ao envelhecimento da população, mas também ao aparecimento de novas neoplasias e às mudanças no estilo de vida das pessoas. Em 2012, o número de novos casos de cancro em Portugal foi de 49.174 e prevê-se que, em 2025, este número aumente para 57.436 novos casos de cancro. Nesse ano, os cancros mais comuns em Portugal deverão incluir mama, próstata, pulmão, cabeça e pescoço e reto, nos quais a radioterapia desempenha um papel importante e significativo. De acordo com os resultados do projeto HERO, até 2025, a necessidade de radioterapia deverá aumentar em até 16%.

“Uma das maiores lacunas no acesso ao tratamento do cancro é na radioterapia e esta contribui para 40% dos tratamentos curativos do cancro. Para que todos percebam os benefícios que a radioterapia pode trazer, tanto para os doentes, como para a economia, precisamos de continuar a defender políticas que reconheçam estes benefícios clínicos e económicos da radioterapia. Estima-se que, se todos os doentes tivessem acesso à radioterapia até 2035, isso impediria o cancro de progredir em 2,5 milhões de pessoas e seriam salvas 950 mil vidas por ano”, destaca a Dr.ª Maria de Lurdes Trigo, presidente da Sociedade Portuguesa de Radioterapia Oncologia.

O tratamento mais eficaz para o cancro em termos de custo-benefício

A radioterapia é uma técnica segura e minimamente invasiva, que pode ser utilizada com sucesso de forma isolada ou em combinação com outros métodos terapêuticos, como a cirurgia, quimioterapia ou imunoterapia. O recurso à radioterapia no pré ou pós-operatório não só melhora a incidência do tratamento cirúrgico, como também possibilita um tratamento mais conservador, preservando o órgão. Além disso, a radioterapia é amplamente utilizada em cuidados paliativos para aliviar a dor, sangramento e outros sintomas, o que melhora a qualidade de vida de doentes com cancros incuráveis.

A radioterapia moderna permite também um tratamento curativo com excelente tolerância para doentes idosos com cancro. Apesar da presença de múltiplos fatores de comorbidade e fragilidade nestes doentes, o que exclui outras formas de tratamento, como a cirurgia, os doentes idosos com cancro toleram muito bem a radioterapia e, num estágio inicial, utilizando técnicas modernas de radioterapia, como a radioterapia estereotáxica (SBRT) e a braquiterapia (BT), a cura é viável. A radioterapia é, assim, um tratamento essencial para uma população cada vez mais envelhecida. 

Outra das vantagens deste tipo de tratamento é o custo, que no total dos tratamentos oncológicos em Portugal representa apenas 8,6%, uma percentagem relativamente modesta, considerando o seu elevado contributo para a sociedade. Embora a análise custo-eficácia estivesse inicialmente muito focada no custo, nos últimos anos o foco passou a incidir mais no valor para os doentes.

No que diz respeito à radioterapia, concluiu-se que os efeitos colaterais diminuíram significativamente e o estado da arte da radioterapia permite melhorias na qualidade de vida e na sobrevivência. O relatório Global Task Force on Radiotherapy for Cancer Control (2015) concluiu que a radioterapia não só salva vidas (globalmente, estima-se que o acesso à radioterapia pode salvar 1 milhão de vidas por ano), mas também compensa em termos de Benefícios de Capital Humano e mais até em termos do Total de Benefícios de Rendimentos, especialmente se apostarmos em técnicas mais avançadas.

Olhando para os gastos com radioterapia, no entanto, encontramos uma disparidade em comparação com outros tratamentos de cancro. Na Europa, apenas 5% a 10% dos orçamentos para o tratamento do cancro são gastos em radioterapia.

“É importante que os profissionais de saúde reconheçam a radioterapia como um agente fundamental no tratamento do cancro. Isto deve acontecer entre os profissionais da área, que a conhecem melhor do que ninguém, mas também de forma alinhada com o poder político. A área tem sido objeto de renovações, mas acreditamos que, com uma melhor formação profissional e mais investimento na área tecnológica, o país pode responder às necessidades”, refere o Dr. Filipe Cidade de Moura, presidente da Associação Portuguesa de Radioterapeutas.

Falta de profissionais

No que diz respeito ao acesso à tecnologia em tratamentos e equipamentos de radioterapia, Portugal está bem posicionado. No entanto, no que diz respeito à inovação, ainda há muito a fazer, sobretudo devido à falta de especialistas em Física Médica.

De acordo com informação de uma investigação feita pela Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) e pela Federação Europeia de Organizações de Física Médica (EFOMP), nos países europeus, a média de físicos médicos por milhão de habitantes é de 16,3/milhão de habitantes, quando a recomendação do EFOMP é um mínimo de 18 físicos médicos por milhão de habitantes.

Em Portugal existem cerca de 57 profissionais reconhecidos como especialistas pela autoridade administrativa, em funções há mais de cinco anos. Ou seja, existem apenas cerca de seis físicos médicos por milhão de habitantes. Um número significativamente abaixo das necessidades atuais e que pode sobrecarregar os poucos físicos em serviço ou até mesmo levar à contratação de físicos sem formação clínica, que teriam de estar em formação durante suas funções.

“A integração de profissionais não-médicos num hospital é muito difícil e torna-se ainda mais complicada quando não há reconhecimento da profissão. Com essa lacuna, e do ponto de vista da física, falta conhecimento do que é a radioterapia e, consequentemente, das suas vantagens. O físico médico desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de novas técnicas de tratamento e sua implementação segura na rotina clínica diária. Portanto, qualquer plano nacional de radioterapia deve considerar não apenas as necessidades de equipamentos, mas também os recursos humanos. É imperativo encorajar o aumento do número de profissionais nesta área e implementar a sua adequada formação hospitalar”, explica a Dr.ª Esmeralda Poli, da Divisão de Física Médica da Sociedade Portuguesa de Física.

Aumento do acesso à radioterapia em todo o mundo

Como foi possível concluir através do projeto HERO, espera-se que a necessidade de radioterapia aumente cerca de 16% até 2025. Isto deve-se ao aumento da morbidez do cancro, assim como as possibilidades e indicações mais amplas de radioterapia, juntamente com o desenvolvimento tecnológico. Portanto, é chave aumentar o número de centros nos quais esse tratamento moderno é fornecido.

“A responsabilidade e o desafio inerentes a um tratamento multidisciplinar e abrangente do cancro exigem consultas de tomada de decisões terapêuticas com partilha equitativa de todas as especialidades envolvidas do diagnóstico ao tratamento”, refere a Dr.ª Maria de Lurdes Trigo.

Recentemente foi formado um Grupo de Trabalho, apoiado por um Comité de Monitorização Internacional, com o objetivo de definir uma estratégia de interesse nacional para o estabelecimento de uma unidade de saúde integrada no Serviço Nacional de Saúde (SNS) para o tratamento de doentes com cancro, utilizando terapias de feixe de partículas de elevada energia, incluindo uma forte valência de investigação e desenvolvimento, nomeadamente investigação clínica. Instituído pelos Ministros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e da Saúde, o Grupo de Trabalho irá estudar uma nova unidade de saúde a ser instalada em Portugal até 2021.

O ex-ministro da Saúde, Prof. Doutor Adalberto Campos Fernandes, afirmou recentemente que existe uma “lacuna de falta de investimento” em novos equipamentos e infraestruturas no SNS, alguns deles básicos, como tomografia computorizada ou aparelhos de ressonância magnética. No entanto, de acordo com o ex-responsável pelo setor Saúde, no final desta legislatura (2019), o SNS será 100% autónomo em radioterapia, o que significa que não terá de recorrer a hospitais e instituições privados que tenham um acordo com o SNS. Segundo o antigo titular da pasta da Saúde, em cerca de seis anos, o investimento em novos equipamentos deverá atingir 1,7 mil milhões de euros.

“Só a união dos profissionais dedicados a esta especialidade pode contribuir para o aumento dos padrões nacionais e melhores hipóteses de cura em Portugal. Redefinir e elevar os padrões nacionais para o benefício de toda a população deve ser a nossa missão nas próximas décadas”, conclui o Dr. Filipe Cidade de Moura.

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